24 de janeiro de 2019

Natal da mãe

O Natal sempre foi a minha época do ano preferida. Sempre fui uma fanática, da decoração, das comidas, do convívio e de ver os meus filhos abrir as prendas.

Este ano as decorações ficaram até à semana passada. Fisicamente não estava muito capaz de as tirar e ninguém comentou o facto de as termos ainda.

Decidi, uns dias antes da cirurgia à coluna, arrumar tudo. Sempre fui eu a arrumá-las com carinho e seria eu este ano também.

Foi o dia mais difícil deste ano, serviu de catárse. Passei horas a tirar tudo devagar devido às minha condição física e chorei a alma...
Não sei se vou estar cá no próximo Natal e é duro viver sem futuro. Imaginar o Natal dos meus filhos sem a mãe é muito difícil.

Guardei os enfeites da nossa árvore, que nos acompanhou estes anos todos. Todos os anos, são adicionados novos enfeites feitos pelos meus filhos na escola. Lindos, uns de barro, outros de lã, cartolina, etc...

Depois de despida a árvore ali ficou nua, como eu, desprovida de adornos e de um futuro...
E ali teve de ficar porque não tinha capacidade física para a desmontar.
E assim passei a tarde a chorar e a olhar para a pobre árvore.

Decidi então, encomendar online, as prendas dos meus filhos para o próximo Natal. Foi a minha forma de lidar emocionalmente com a situação.
É fazer o que estiver ao meu alcance para lhes deixar o máximo do meu amor.

Hoje fomos levantar as prendas na loja.
A senhora estava espantada com tanta coisa (também comprei as prendas de anos... Queria garantir que tinham as prendas da mãe este ano). Eu expliquei a situaçāo e a senhora embrulhou carinhosamente tudo e etiquetámos.

Senti-me mais leve ao chegar a casa.
É dificil viver com esta doença e eu vou lidando como posso.

Feliz Natal a todos😘.


Mónica.

3 de janeiro de 2019

Dignidade

Não fazia ideia do que 2019 me traria...
Não fiz planos nem listas nem tenho grandes desejos, além de cá estar se possível.

Nestes primeiros dias do ano é normal vermos nas redes sociais o balanço que as pessoas fazem do seu ano e sentirmos a esperança que depositam no novo ano.
Lemos os seus desejos e promessas de mudanças, as suas "wish lists, "changing plans", etc...

Nada contra. Acho fantástico, e normalmente são as partilhas mais genuínas do ano que se lêem.
O momento em que realmente a pessoa parou, analisou o seu percurso e tenta ver onde pode melhorar ou para onde quer seguir.

O problema é voltarmos demasiado cedo à rotina, aos maus hábitos, não nos libertarmos logo do que nos faz mal iludindo o cérebro com os adiamentos das pequenas mudanças que nos fariam tão bem... E depois o tempo vai passando e começamos a achar que se não tivemos a coragem no início do ano, não temos o que é preciso e voltamos a adiar...

Viver não pode nem deve ser tão complicado e ser feliz muito menos. Devia ser fácil.
Não te subjuges, dá-te o mérito que mereces, utiliza o teu poder de opção, de escolha e se possível ajuda os outros no caminho.

Cá por casa o ano começou em grande downhill com declive vertiginoso para toda a família, mas eu já vou a meio da descida e não tenho como travar a mesma.

Após estes meses de tratamento, fiz uma Pet que revelou a não resposta do meu corpo à doença, o cancro não regrediu e o meu corpo não ganhou terreno nesta batalha já considerada injusta e imparcial desde a casa da partida...

Mas a dignidade, o respeito e a valorização da minha pessoa como ser merecedor foi o melhor início de ano possível.

Ontem houve reunião multidisciplinar sobre o meu caso na Fundação Champalimaud e soube hoje que a equipa médica não desistiu de mim e não pretende render-se tão cedo.
O meu 2019 terá amor e dignidade, e quantas pessoas não podem dizer o mesmo...tão injusto que é este mundo.

Obrigada à equipa da clínica da mama do Champalimaud e em especial à Dra Luzia e Dra. Helena que tanto contribuíram para a minha dignidade estes meses.

Feliz 2019!

10 de dezembro de 2018

Tropecei. E agora? Levanto outra vez!

Hoje não comecei o terceiro ciclo  de tratamento. O primeiro foi muito forte e demorei três semanas a recuperar.
Mesmo tendo baixado a dose do segundo ciclo, o meu corpo não recuperou e não posso começar o terceiro.

E depois? Depois nada!
Caga nisso. Ainda tou viva e vou espernear até ao fim.

Hoje uma amiga disse-me que eu não sou normal, que tenho muita força e que sou incrível.
Não, desculpem mas não sou.
Sou perfeitamente normal.
Tenho falado com muitas doentes, conhecido muitas "heroínas", casos de imensa coragem e força.

Estarmos no precipício, à beira da queda iminente faz com que nos agarremos como lapas à "Rocha".  E se tivermos boa razões para nos agarrarmos como eu tenho - família linda e amigos que me amam - isto só descola quando a validade da cola terminar mesmo.
Até lá, que se lixe a doença, as dores, o corpo fraco e a perna a arrastar.

Vou viver, vou sorrir, vou abraçar muito e deixar ao mundo o meu amor e felicidade de cá estar.

Não há nenhuma heroína cá em casa, há amor. E o amor é cola bem forte que gruda e não quebra facilmente.

E quando chegar essa hora, vou com um sorriso na cara e assim serei recordada.

Muito obrigada a todos pelo amor que me dão e pelo amor que me deixam dar.
Boa semana! 😘😘

Pôr do sol visto da minha varanda e eu cá no meu recanto.😎😎